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CLASSIFICAÇÃO ETNOBIOLÓGICA DE CRUSTÁCEOS (DECAPODA: BRACHYURA) POR PESCADORES ARTESANAIS DO MUNICÍPIO DE CONDE, LITORAL NORTE DO ESTADO DA BAHIA, BRASIL

Henrique Fernandes Magalhães, Eraldo Medeiros Costa Neto, Alexandre Schiavetti

Resumo


Os sistemas de classificação etnobiológicos frequentemente difundem-se pela oralidade. Sua interpretação leva a compreender como as sociedades humanas nomeiam e ordenam os elementos de seu ambiente. O presente estudo teve por objetivo registrar a classificação etnobiológica de crustáceos braquiúros de importância econômica no município de Conde, Litoral Norte da Bahia, Nordeste do Brasil. O trabalho de campo foi realizado no período de setembro de 2007 a dezembro de 2009, mediante o uso de técnicas etnográficas usuais, como entrevistas abertas e semiestruturadas, bem como observações comportamentais. Foram entrevistados, individual ou coletivamente em variados contextos, pescadores artesanais (n = 57), de ambos os gêneros, com idades entre 10 e 78 anos, acerca dos nomes populares e dos principais critérios adotados na identificação etnotaxonômica dos braquiúros de importância econômica na região. Foram visitadas sete comunidades pesqueiras: Siribinha, Sítio do Conde, Poças, Ilha das Ostras, Cobó, Buri e Sempre Viva. Os dados referentes à etnotaxonomia dos crustáceos foram analisados segundo os Princípios de Classificação Etnobiológica de Brent Berlin. Os resultados mostram que braquiúros de importância econômica são classificados na Forma de Vida Marisco. Seis táxons específicos de siris (Portunidae) foram registrados e nomeados com base em critérios ecológicos e morfológicos. Alguns dos nomes comuns referentes à Ucides cordatus e Cardisoma guanhumi obedecem a esses mesmos critérios. Com base nos resultados, percebe-se que o sistema de classificação etnobiológico adotado em Conde reflete os saberes relacionados a aspectos biológicos e ecológicos dos braquiúros. 


Palavras-chave


caranguejos; etnotaxonomia; pesca artesanal

Texto completo:

magalhães et al 2016

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DOI: http://dx.doi.org/10.22276/ethnoscientia.v1i1.22

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